Mercado de trabalho aquecido também tem seus desafios

* Por Leonardo Porto

A taxa de desemprego no Brasil alcançou em setembro o patamar mínimo histórico de 5,2% da população economicamente ativa. Diante desta notícia positiva cabe perguntar se a taxa de desemprego poderia atingir níveis ainda mais baixos e quais os impactos deste mercado de trabalho aquecido sobre a inflação.

Primeiramente, é importante esclarecer que em nenhum país a taxa de desemprego é de 0%. Isto ocorre porque sempre haverá pessoas sendo demitidas e/ou pedindo demissão assim como trabalhadores entrando no mercado de trabalho. Tais grupos de indivíduos costumam consumir algum tempo até serem alocados em novos postos de trabalho, o que significa que durante esse interregno eles serão computados na taxa de desemprego de qualquer país. Assim, em qualquer país do mundo a taxa de desemprego mínima que se pode atingir é sempre algum patamar superior a 0%.

Tendo isso em mente, os economistas criaram o conceito de taxa natural de desemprego que seria aquele patamar condizente com um mercado de trabalho em equilíbrio, sem maiores pressões sobre os salários. Como diversos outros fatores (institucionais, conjunturais, demográficos) poderiam afetar o nível da taxa natural de desemprego, seu patamar tende a ser particular de cada economia. Ou seja, países que possuem uma população mais jovem, que conceda maior proteção aos trabalhadores, ou mesmo que estabeleça maiores custos demissionários às empresas tendem a possuir um nível de taxa de desmprego natural mais elevado.

Mas qual seria o nível desta taxa natural de desemprego no Brasil? Apesar de ser uma variável que não se observa (diferentemente da taxa de desemprego) vários métodos estatísticos podem ser aplicados para tentar estimá-la. Segundo alguns trabalhos empíricos, a taxa natural de desemprego do Brasil estaria em um patamar pouco superior a 7%.

Recentemente, o Banco Central fez uma pesquisa junto aos analistas de mercado perguntando a eles qual seria suas respectivas estimativas para a taxa natural de desemprego. De acordo com o BC, a média das estimativas dos analistas estaria em torno de 6,5%. Tendo ambas as estimativas em mente, pode-se dizer que o atual nível de taxa de desemprego no Brasil de 5,2% está abaixo do seu nível natural, significando potenciais pressões altistas nos salários dos trabalhadores.

Segundo alguns trabalhos recentes, tal elevação dos salários nos últimos anos foi mais pronunciada para classes de rendas mais baixas sugerindo que a falta de trabalhador menos qualificado parece ter sido mais intensa do que a de trabalhadores mais qualificados.

Mas qual o impacto dos aumentos salariais sobre as demais variáveis macroeconômicas? Além do evidente ganho de poder de compra dos trabalhadores, significando que estes poderão usufruir de um maior consumo/poupança, aumentos de salários não acompanhados de um ganho de produtividade do trabalhador geram custo às empresas. Tais empresas tenderão a repassar tais aumentos de custos aos preços dos seus produtos caracterizando uma pressão inflacionária advinda do canal dos salários.

Neste sentido, pode-se afirmar que apenas os aumentos de salários compatíveis com uma maior produtividade do trabalhador é que gerará maior poder de compra aos trabalhadores com o restante sendo apenas transformado em maior inflação para toda a sociedade.

A mensagem que fica desta breve análise é a de que todos nós gostáriamos de que o mercado de trabalho no Brasil permanecesse aquecido nos proximos anos. Para isso, faz-se necessário que a economia cresça a uma velocidade suficiente para absorver toda a mão de obra disponível. Porém, tão importante quanto gerar novos empregos é o fato de que o trabalhador brasileiro precisa estar constantemente se reciclando de forma a incrementar a sua produtividade e, desta forma, transformar os ganhos nominais de salários em maior poder de compra. Para que esta produtividade continue a evoluir, políticas públicas/ações privadas que visem atingir maiores e melhores níveis educacionais terão papel crucial nos próximos anos.

Leonardo Porto de Almeida é economista sênior do Citi desde agosto de 2008; mestre e doutor em Teoria Econômica pela FEA/USP.

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One Response to Mercado de trabalho aquecido também tem seus desafios

  1. Hugo Damasio says:

    ´´significando que estes poderão usufruir de um maior consumo/poupança´´

    Se fosse de mais poupança e menos consumo, ja estaria de bom tamanho, mas o brasileiro adora se endividar………..e com juros em queda livre haha vai se dificil.

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