Consumir x Poupar

* Por Leonardo Porto

Nos últimos meses temos visto o governo adotar diversas medidas que visam incentivar o consumo, em especial a desoneração de impostos para a aquisição de bens duráveis (automóveis e eletrodomésticos da linha branca).  Tais medidas produzem uma redução de custo para toda a cadeia produtiva e quando acompanhada de repasses aos preços finais aos consumidores geram um incremento de demanda que acaba por incentivar a maior produção por parte das empresas. Sob uma maior produção, a desoneração tributária acaba por melhorar o mercado de trabalho dos respectivos setores.

Mas por que o governo não concede incentivos para que as pessoas aumentem a poupança ao invés do consumo? Diante da relação acima descrita entre consumo e produção a resposta pode parecer trivial, já que aumentar a poupança significa, no curto prazo, reduzir o consumo, consequentemente a produção. Entretanto, se pensarmos que a poupança de hoje é o consumo de amanhã tal argumentação perde parte da sua fundamentação. Além disso, se lembrarmos que o aumento da poupança eleva o volume de recursos financeiros a serem emprestados permitindo a redução das taxas de juros dos empréstimos e a concomitante elevação do consumo o incentivo à poupança não parece ser sem propósito.

Neste ponto, o leitor poderia estar se perguntando as razões de se defender o incentivo à poupança ao invés do consumo. A principal razão reside no fato de que o Brasil é um país que tem poupança baixa. Considerando a poupança do governo mais a do setor privado (empresas e famílias) a taxa de poupança no Brasil (chamada poupança doméstica) somou cerca de 19% do PIB em 2011, muito abaixo dos níveis vistos em diversos países emergentes, em especial em alguns asiáticos que chegam a atingir patamares superiores a 30% do PIB.

Sendo um país com uma baixa taxa de poupança doméstica, a economia brasileira precisa financiar o investimento através da absorção de poupança externa. Como esta forma de financiamento implica em uma maior dependência do capital externo, pode-se dizer que a baixa taxa de poupança doméstica leva a economia brasileria a se tornar mais dependente do humor dos investidores internacionais. Além disso, estudos empíricos sugerem que na hipótese da nossa taxa de poupança se elevar para patamares próximos aos 30% do PIB (como na Coréia do Sul ou Tailândia) a taxa de juros no Brasil declinaria cerca de cinco pontos percentuais. Ou seja, elevar a taxa de poupança no Brasil não apenas reduziria nossa vulnerabilidade externa como também permitiria conviver com taxas de juros permanentemente mais baixas, ambas as mudanças contribuindo para impulsionar o investimento que é o que de fato contribui para elevar nossa capaciade de crescimento no longo prazo.

Em resumo, mesmo admitindo que a haja racionalidade em estimular o consumo, um dos principais gargalos que restringe o crescimento de longo prazo da nossa economia é a baixa taxa de poupança doméstica o que requeriria medidas no sentido de postergar o consumo no curto prazo, dentre elas a redução do imposto de renda sobre as aplicações financeiras.

Leonardo Porto de Almeida é economista sênior do Citi desde agosto de 2008; mestre e doutor em Teoria Econômica pela FEA/USP.

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One Response to Consumir x Poupar

  1. Ivo Nascimento says:

    Bom artigo. Por curiosidade dei uma olhada nos seus trabalhos de mestrado/doutorado (site da USP), o assunto poupança é sempre muito interessante. Me formei recentemente em Economia. Inclusive me inscrevi no trainee da citi desse ano. Continue escrevendo, abraços.

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