Será que o brasileiro está mesmo endividado?

* Por Leonardo Porto

Antes de responder a essa pergunta, é importante refletirmos sobre dois conceitos relacionados a esta questão: o endividamento propriamente dito e o comprometimento de renda.

Definine-se endividamento como o valor total da dívida dividido pela renda disponível. Neste sentido, se um indivíduo/família adquire uma dívida (para compra de um automóvel por exemplo) no valor de R$30 mil, e tem um renda anual (através de salários, aposentadoria, etc) de R$50 mil, este(a) teria um endividamento de 60% (30/50) da sua renda anual disponível.

Na prática, de acordo com dados oficiais calculados pelo Banco Central do Brasil, o endividamento das famílias brasileiras atingiu cerca de 43% em maio/2012, bem acima dos 18% verificados em janeiro/2005. A expressiva elevação do endividamento das famílias brasileiras nos últimos sete anos decorreu da maior expansão do mercado de crédito brasileiro (empréstimos bancários) que superou a robusta elevação da renda das famílias brasileiras no período.

Porém, mesmo considerando a significativa elevação do endividamento das famílias brasileiras, o atual patamar, em torno de 43%, permanece bem abaixo daqueles verificados em países desenvolvidos (EUA, Europa em torno de 100%) ou mesmo em alguns países emergentes (Chile com 60%).

Mas será que ter um alto endividamento significa maior dificuldade em efetuar o pagamento desta dívida? Em outras palavras, famílias mais endividadas possuem orçamentos mais inflexíveis? Não necessariamente. Para avaliar esta questão criou-se o conceito de comprometimento de renda, que é o percentual da renda disponível dos indivíduos/famílias que é destinado ao pagamento de suas dívidas. Isto é, se aquele mesmo indivíduo que ganha R$50mil ao ano destina R$12 mil (R$1 em cada mês) para o pagamento dos juros e amortização de sua dívida, este teria um comprometimento de renda de 24% (12/50) da renda disponível. Novamente, de acordo com os dados do Banco Central do Brasil, o comprometimento de renda das famílias brasileiras atingiu o patamar de cerca de 22% em maio/12, acima dos 15,5% verificados em janeiro/05.

Interessante notar que em um mesmo período (janeiro/05 a maio/12), o endividamento das famílias brasileiras cresceu bem mais vigorosamente (de 18% para 43%) do que o comprometimento de renda (de 15,5% para 22%). Tal evidência foi resultado em maior medida do alongamento dos prazos dos empréstimos bancários no período (especialmente expansão do crédito imobiliário) e, em menor magnitude, da queda das taxas de juros dos empréstimos, ambos permitindo a elevação do endividamento sem a concomitante alta do comprometimento de renda.

O descolamento entre estas duas medidas torna-se ainda mais evidente quando se avalia os dados do Fundo Monetário Internacional (FMI) que mostram que o atual patamar de 22% do comprometimento de renda das famílias brasileiras é maior do que aqueles observados em economias com níveis de endividamento privado bem superior ao do Brasil como os EUA e a Espanha. Dentre as várias possíveis explicações, o que os dados do FMI nos sugerem é que o ainda baixo volume de crédito imobiliário no Brasil estaria por trás deste aparente paradoxo. Isto porque tal modalidade de crédito tem maturidade longa significando que sua concessão implicaria em elevação do endividamento com pequeno impacto sobre o compromentimento de renda.

Em síntese, e em resposta ao título desta coluna, o endividamento do brasileiro cresceu significativamente nos últimos anos, mas ainda se mantém baixo comparativamente a outros países. Contudo, o comprometimento da renda do brasileiro com o pagamento de dívidas é superior ao de países com nível de endividamento mais elevados, resultado da maturidade curta dos emprésitmos bancários no Brasil.

Dito isso, parece haver ainda espaço para o crédito crescer no Brasil, principalmente em relação àqueles de prazo mais longos, como o imobiliário, que afetam de forma menos intensa o comprometimento da renda das famílias brasileiras.

Leonardo Porto de Almeida é economista sênior do Citi desde agosto de 2008; mestre e doutor em Teoria Econômica pela FEA/USP.

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2 Responses to Será que o brasileiro está mesmo endividado?

  1. carmel almeida says:

    O principal fator de agravamento do endivadamento do brasileiro são os juros altíssimos que se cobra nos cartões de crédito e no cheque especial. Bancos, como o Santander, por exemplo, que cobra 10% no cheque especial, acaba levando o cliente a bancarrota. Muitas pessoas reclamam dessa situação. Incrivel como esses bancos buscam o cliente e seu capital para investir no banco, os investimento rendem em torno de 0,8%, enquanto as taxas de juros dos cartões que administram e do cheque especial ficam entre 10 e 15%! é absurdo. Desse jeito, a população acabará falindo……

  2. Lizi says:

    O Brasil está evoluindo neste sentido.. as taxas de juros tem apresentado índice decrescente e de forma constante. Ainda temos que considerar que o spread bancário brasileiro é um dos mais altos do mundo, porém, as mudanças que vem ocorrendo estão fortalecendo nossa economia e mudando a controvérsia de que este dinheiro cobrado pelos bancos deveria estar sendo utilizado para girar a economia. Ainda acredito, que a economia Brasileira irá nos surpreender, apresentando não só crescimento, mas também desenvolvimento econômico!!

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