Quem se beneficia com a alta do dólar

* Por Leonardo Porto

Em nossa última coluna discutimos que dentre as possíveis consequências provenientes de um agravamento da crise internacional estaria um provável encarecimento do dólar em relação ao real (alta da taxa de câmbio). Na coluna de hoje discutiremos os potenciais beneficiários/prejudicados de uma taxa de câmbio mais elevada.

Primeiramente é importante lembrar que o governo vem afirmando em inúmeras ocasiões seu desconforto com níveis muito baixos da taxa de câmbio. Ainda que não dê para afirmar qual seria o nível ideal de taxa de câmbio para o governo, o fato é que patamares em torno de 1,70, como visto no início deste ano, motivou inúmeras medidas (alta do IOF, compras no mercado spot, etc) no sentido de encarecer a moeda estrangeira (elevar a taxa de câmbio). Por outro lado, vimos hoje (14/6), o governo voltando atrás em algumas daquelas medidas adotadas (IOF de 6% incidirá somente sobre empréstimos estrangeiros até dois anos ante cinco anos anteriormente) sugerindo que uma de taxa de câmbio em patamares próximos de 2,10 tende a suscitar preocupações no sentido contrário.

Independentemente de qual seja o nível ideal de taxa de câmbio o fato é que a explícita disposição do governo em encarecer a moeda estrangeira em relação ao real (alta da taxa de câmbio) deriva da interpretação de que por trás da estagnação (crescimento nulo) do setor indutrial estaria sua falta de competitividade em relação a outros países. Desta conclusão, pode-se inferir que uma taxa de câmbio mais elevada ajudaria na recuperação da indústria uma vez que este setor exporta grande parte da sua produção. Porém, é importante lembrar que uma parte do setor industrial também importa produtos estrangeiros sejam estes matérias primas, máquinas/equipamentos, etc..

Para este grupo, uma taxa de câmbio mais elevada elevaria seus custos de produção, consequentemente, prejudicando a rentabilidade dos seus negócios. Diante de tais observações parece plausível afirmar que dentre os beneficários de uma taxa de câmbio mais elevada estaria a parcela do setor industrial que é exportadora líquida (exporta mais do que importa). Ainda sobre os grupos que se beneficiariam de uma taxa de câmbio mais elevada não se deve esquecer do setor agropecuário que é uma importante exportador líquido da economia brasileira.

Mas quem seriam os prejudicados? A grosso modo, pode-se responder que todos os importadores líquidos da economia brasileria seriam afetados negativamente pela taxa de câmbio mais deperciada. Mas quem são estes importadores líquidos? Em geral, todos aqueles consumidores que destinam grande parte da sua renda para compra de bens que são comercializados internacionalmente tendem a ser prejudicados dado seu provável aumento de preço. Neste ponto, muitos de nós associa tais consumidores aos compradores de carros importados, mas não são só eles. Na verdade, a maior parte dos alimentos também são comercializáveis internacionalmente e tendem a elevar de preço quando a taxa de câmbio sobe (vide a recente alta do pão francês).

Sendo assim e diante do fato de que praticamente todos nós consumimos alimentos de uma forma ou de outra pode-se inferir que manter uma taxa de câmbio mais elevada tende a beneficiar o setor industrial/agropecuário em detrimento dos consumidores.

Leonardo Porto de Almeida é economista sênior do Citi desde agosto de 2008; mestre e doutor em Teoria Econômica pela FEA/USP.

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