O que acontece conosco se a crise perdurar?

* Por Leonardo Porto

Já dissemos que a atual turbulência nos mercados financeiros que produziram a recente elevação da taxa de câmbio (valorização do dólar em relação ao real) para patamares em torno de USD/BRL2,0 tem como causa primordial o agravamento da crise européia, mais especificamente a potencial e iminente saída da Grécia do bloco europeu. Hoje gostaríamos de discutir o que podemos esperar para as variáveis macroeconômicas (PIB, inflação, taxa de juros, contas públicas, contas externas, etc) caso tal turbulência persista por muito tempo ou, eventualmente venha a se agravar.

Mais do que projetar números, o propósito deste espaço é o de avaliar, em termos qualitativos, qual seria a tendência para tais variáveis diante deste cenário internacional menos favorável. Primeiramente, e conforme já dissemos anteriormente, o agravamento da crise européia tende a elevar a aversão ao risco dos investidores internacionais produzindo saída de capitais de países emergentes como o Brasil. Ou seja, como esta saída se daria por meio da maior demanda por dólar (em relação ao real), é de se esperar que a taxa de câmbio se mantenha em patamares mais elevados por mais tempo.

Com relação ao crescimento econômico (expansão do PIB), a crise de dívida européia deprime a capacidade de empréstimos dos bancos, o que significa menor acesso aos recursos financeiros por parte das empresas, consequentemente menor produção/crescimento econômico mundial.

Sob uma menor demanda mundial, a venda dos produtos brasileiros (via exportação) tornar-se-ia mais difícil, restringindo o crescimento da economia brasileira. A expansão do PIB no Brasil também seria prejudicada pelo menor acesso ao crédito por parte dos consumidores, ao mesmo tempo que os incentivos aos investimentos seriam reduzidos diante do cenário de menor expectativa de demanda. Enfim, um cenário internacional mais adverso tende a reduzir a expansão do PIB no Brasil por diversos canais, entre eles, do comércio internacional (exportações), do crédito (consumo/investimentos) e da confiança do empresário (investimentos).

Diante deste quadro menos promissor, o governo brasileiro tende a reagir, ampliando seus gastos e reduzindo impostos (como já está fazendo no IPI dos automóveis/linha branca/etc), ao mesmo tempo que o Banco Central tende a intensificar os estímulos monetários (via redução da taxa de juros Selic) e de crédito (compulsório??, relaxamento da legislação??) com o objetivo precípuo de amortecer a piora do crescimento econômico. Diante da potencial reação da política fiscal é de se esperar alguma piora nas contas públicas (menor superávit primário, menor queda da dívida/PIB) ao mesmo tempo em que a taxa Selic tende a buscar patamares historicamente ainda mais baixos.

Sobre a inflação, a avaliação qualitativa é menos óbvia. Se por um lado, a taxa de câmbio mais elevada aumenta os preços dos bens importados (elevando a inflação), por outro o menor crescimento da economia brasileira juntamente com a queda dos preços internacionais (devido ao menor crescimento mundial) tende a reduzir a inflação no Brasil. A resultante destas três forças sobre a inflação brasileira é indeterminada, mas a experiência de 2008/2009 mostrou que quanto mais intensa for a crise, mais provável os impactos deflacionistas tendem a superar a maior taxa de câmbio, sugerindo que o nível de inflação tende a se reduzir.

Além disso, diante da taxa de câmbio mais elevada, da queda dos preços internacionais e do menor crescimento da economia brasileira, a performance das importações tende a ser ainda pior do que o das exportações brasileiras contribuindo para a melhora do saldo da balança comercial, consequentemente das contas externas da economia brasileira.

Finalmente, vale ressaltar mais uma vez que tais conclusões foram extraídas após assumirmos que a crise internacional perdurará por mais tempo ou mesmo se intensificará, apesar de, por enquanto, não acreditarmos ser este o cenário mais provável para os próximos meses. Quem viver verá!!

Leonardo Porto de Almeida é economista sênior do Citi desde agosto de 2008; mestre e doutor em Teoria Econômica pela FEA/USP.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: