O sobe-desce do dólar e suas consequências

* Por Leonardo Porto

Retornando de férias, vamos inaugurar uma nova etapa da coluna. Agora que conversamos sobre os principais conceitos de economia, discutiremos assuntos da atualidade. E a primeira discussão vai responder à pergunta: Por que a cotação do dólar subiu nas últimas semanas?

A taxa de câmbio nada mais é do que o preço da moeda estrangeira em relação ao Real. Isto é, quando a taxa de câmbio passa de R$1,80 para R$2,00 signifca que agora são necessários 11,1% mais reais para comprar a mesma quantidade de dólares que anteriormente, ou seja, houve encarecimento da moeda estrangeira (dólar) em relação à nossa moeda (real). Desta forma, e como qualquer outro preço, a taxa de câmbio também responde a famosa lei da oferta e demanda, neste caso aplicada sobre a moeda estrangeira e o real.

Começando pelo dólar, o que estamos vendo atualmente na economia mundial é um receio generalizado acerca dos possíveis efeitos que possam ser gerados por uma eventual saída da Grécia do bloco europeu. Como se sabe, o governo grego tem um dívida pública imensa (cerca de 170% do PIB) que em parte está nas mãos do setor privado, em especial em instituições financeiras. Devido à desconfiança de não pagamento desta dívida, os bancos privados deixaram de emprestar recursos para a Grécia já há algum tempo, obrigando o país a buscar recursos junto às instituições multilaterais (FMI) e governamentais (BC Europeu/Fundo de Estabilização Europeu).

Ocorre que em troca desses recursos mais baratos (taxas de juros mais baixas) tais instituições exigiram que o governo grego cortasse expressivamente seus gastos e elevasse os tributos como forma de indicar que tais empréstimos pudessem ser pagos no futuro. Com o agravamento das condições econômicas na Grécia (taxa de desemprego acima de 20%), o caos social se instalou levando a população a pressionar o governo a não mais seguir com o programa de ajuste fiscal. A situação se tornou ainda mais grave com as eleições ocorridas em maio onde não se conseguiu montar um governo que tivesse maioria no Congresso.

O resultado é que foram chamadas novas eleições para o próximo dia 17/6 onde um dos partidos favoritos defende o rompimento com o ajuste fiscal. Caso isso ocorra, a Comunidade Européia se verá na encruzilhada entre punir a Grécia e expulsá-la do bloco europeu ou perdoá-la e arcar com as consequências de dar o mesmo tratamento a outros países que enfretam situações semelhantes como Portugal, Irlanda e, em menor escala, Espanha e Itália. O resumo desta história, é que tais desdobramentos tornaram os investidores mais temerosos sobre seus recursos levando-os a procurarem ativos com menor risco. Em outras palavras, houve um aumento pela demanda de dólares em todo o mundo, consequentemente pressionando o preço do dólar para cima frente a maioria das moedas incluindo o real.

Em resumo: o agravamento da situação Européia e grega gera um maior receio dos investidores levando-os a procurarem ativos com menor risco, consequentemente a demandarem mais dólares. A maior demanda por dólares aumenta seu preço, fazendo a taxa de câmbio no Brasil a se elevar.

Mas a história não para aqui. Temendo que a rápida elevação da taxa de câmbio produza efeitos perversos sobre a economia, o Banco Central decidiu nos últimos dias vender dólares nos mercados financeiros domésticos (especificamente no mercado futuro de câmbio). Ao fazê-lo, o BC brasileiro eleva a oferta de dólares produzindo um redução do seu preço (queda da taxa de câmbio) ou, pelo menos, amortecendo a alta que vinha sendo produzida pelo agravamento da situação internacional. É basicamente por causa desta decisão que a taxa de câmbio recuou de patamares de R$2,10 atingidos na última 4ª feira (23/5) para níveis mais próximos de R$2,05.

Mas o que podemos dizer sobre a taxa de câmbio daqui para frente. Sem ter nenhuma pretensão de me comprometer com uma previsão para a taxa de câmbio (dada a extrema dificuldade de prevê-la) o que podemos dizer é que nossa taxa de câmbio tradicionalmente reflete muito mais condições globais do que fundamentos da nossa economia. Neste sentido, se acreditarmos que a crise européia continuará se agravando a tendência é que a taxa de câmbio se eleve ainda mais no curto prazo, mesmo reconhecendo que as atuações do BC possam amortecer tal movimento.

No entanto, caso as autoridades europeias encontrem um denominador comum para a crise grega pode-se esperar pressões para queda da taxa de câmbio no curto prazo. De qualquer forma, admitindo que no longo prazo (após 2012) as incertezas dos investidores quanto ao caminho perseguido pela Grécia se reduzirão, parece mais provável prever que a taxa de câmbio no Brasil tende a se estabilizar em um patamar mais baixo do que o visualizado atualmente.

Se você tem alguma dúvida, ou quer conversar sobre um tema da economia, escreva aqui.

 

Leonardo Porto de Almeida é economista sênior do Citi desde agosto de 2008; mestre e doutor em Teoria Econômica pela FEA/USP.

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