Você sabe o que é taxa de juros?

* Por Leonardo Porto

Claro que sabe: é o preço que se cobra para antecipar ou postegar o consumo de um bem ou serviço. Isto é, quando não dispomos de recursos financeiros suficientes, precisamos financiar a compra do bem ou serviço, enquanto a sobra de capital em nosso orçamento recebe uma “gratificação extra” caso se opte pela postergação do consumo. Em ambos os casos, a taxa de juros é o preço que se pagaou recebe pela antecipação ou postergação do consumo.

Em termos práticos, pode-se dizer que uma nota de R$ 10 hoje vale mais que a mesma nota de R$ 10 amanhã. Isto porque, para que você me empreste R$ 10 hoje, você terá que receber uma remuneração extra positiva (taxa de juros) que o compense de abrir mão do consumo presente. Sendo assim, pode-se dizer que uma elevação ou redução da taxa de juros significa o encarecimento ou barateamento do dinheiro.

Ocorre que existem milhares de taxas de juros: do cartão de crédito, do cheque especial, do financiamento de um carro ou imóvel, do empréstimo pessoal, do financiamento do eletrodoméstico, aplicação em CDB, poupança, fundos de investimento… enfim, poderíamos citar uma infinidade de taxas de juros presentes na economia, e cada uma delas tem seus respectivos preços (níveis). E por que cada uma dessas taxas de juros tem níveis diferentes? Como qualquer outro preço, a taxa de juros depende da lei da oferta e demanda que, por sua vez, sofre influências de diversos fatores, entre eles, o risco de crédito (não pagamento) do devedor, custo básico da operação para o emprestador, concorrência entre os emprestadores, garantias atreladas ao empréstimo em caso de não pagamento, entre outras.

Ouve-se com certa frequência que o Brasil tem a maior taxa de juros do mundo. Para responder esta questão e à luz do que discutimos no parágrafo anterior, deve-se primeiramente definir a qual taxa de juros que essa afirmação se refere. Em geral, ela se refere a taxa de juros básica de curto prazo da economia, comumente denominada taxa Selic, que é o instrumento básico utilizado pelo Banco Central para implementar a política monetária. Em segundo lugar, é importante lembrar que a “remuneração ou pagamento real” recebida ou paga pelo aplicador ou devedor é a taxa real de juros, definida como a taxa de juros nominal descontada a inflação. Isto porque, do ponto de vista do credor (ou devedor), se este recebe (paga) uma taxa de juros de 10% sob uma inflação de 9% seu ganho (perda), em termos reais, foi de apenas 1%. Tal menção torna-se importante na medida em que a inflação no Brasil é normalmente superior à média dos seus pares, exacerbando a diferença das taxas de juros nominais do Brasil em relação a de outros países. Ainda assim, pode-se dizer que a taxa Selic real no Brasil é elevada quando comparada a de outros países.

Mas qual a explicação para as taxas de juros reais elevadas no Brasil? Longe de ter a pretensão de explicar a elevada taxa real de juros no nosso país, o fato é que mesmo sob esta elevada taxa real de juros a inflação no Brasil permaneceu em patamares altos (normalmente acima do centro da meta de inflação de 4,5%), sugerindo que, se a taxa Selic tivesse sido mais baixa, veríamos níveis de inflação incompatíveis com o mandado do Banco Central de perseguir patamares anuais até no máximo 6,5%.

Em relação às potenciais causas das taxas de juros reais, não podemos esquecer que grande parte do mercado de crédito no Brasil possui taxas de juros subsidiadas (abaixo do mercado), em especial os empréstimos concedidos pelo BNDES, crédito imobiliário e rural. Juntas, tais modalidades, denominadas formalmente como crédito direcionado, totalizavam uma carteira de crédito de R$ 726 bilhões em janeiro de 2012, ou 36% do crédito bancário total da economia brasileira. Uma vez que tais créditos possuem taxas de juros abaixo do mercado, a taxa Selic precisa ser mais elevada para compensar o subsídio concedido naquelas modalidades.

Dito isso, conclui-se que a taxa de juros tem papel relevante em nossas decisões cotidianas, seja como poupador ou devedor. Além disso, pode-se dizer que uma parcela da taxa de juros nominal no Brasil é explicada pelo ainda elevado nível de inflação em nosso país, assim como o expressivo volume de empréstimos subsidiados na economia brasileira.

 

Leonardo Porto de Almeida é economista sênior do Citi desde agosto de 2008; mestre e doutor em Teoria Econômica pela FEA/USP.

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